domingo, 14 de agosto de 2011

Diferentes Perspectivas em Saúde do Trabalhador: Parte I


            A atenção à saúde do trabalhador tem seu início histórico no pós-revolução industrial, época de longas jornadas de trabalho, exploração incontida, e frenéticos ritmos do trabalho alienado. Neste momento, ao ser transformada a forma da organização do trabalho, os antigos artesões e pequena burguesia passam a conviver com o trabalho dividido em centenas de pequenas partes, onde se destitui a arte do savoir-faire do operário. O saber agora é saber da pequena parte, o todo (holos) se perde, assim como o poder sobre seu trabalho. Muitas vezes o operário participa da pequena parte de um longo processo que resultará em produtos que sequer pode adquirir.

            Diante de contextos insalubres, com alta periculosidade, os trabalhadores doentes serão encaminhados aos setores médicos. A formação da medicina do trabalho serviu como válvula de escape da responsabilidade da burguesia, pois, doravante, o médico será responsabilizado pela má condição de saúde dos trabalhadores. Além disso, o médico poderia consertar as engrenagens de um operariado entendido a semelhança da maquina. O corpo do operário deveria ser concertado para voltar a produção fabril. O objetivo era, essencialmente, relacionado aos interesses da grande burguesia.

            Como todo saber tem sua base epistemológica, com este modelo de intervenção não há diferença. O saber médico era enraizado nos postulados que viriam a constituir a base do positivismo. O positivismo, criado por Augusto Comte, influenciou sobremaneira as ciências de modo geral, e foi formado, ao longo da história, com enormes influencias do empirismo de John Locke e, por outro lado, pelo cartesianismo, isto é, pelas contribuições de René Descartes. Foi, porém, Isaac Newton, antes de Comte dar "nome aos bois", quem deu aos postulados filosóficos um enfoque aplicável no início da ciência clássica.

            Tendo isto em vista, fica claro que o início da atenção à saúde do trabalhador se deu por um saber de tendência universalizante (já que tratam-se de leis invariáveis e da natureza) e totalizadora, mono-causal (já que todo efeito tem uma causa necessária, e, como modelo reducionista, não possibilita a observação poli-causal), determinista (não há lugar para indeterminação ou livre-arbítrio), associacionista e atomista (as menores partes se associam para formar o todo, sendo o todo a soma das partes). O reducionismo da medicina do trabalho permanece ainda nos dias atuais quando se limita a complexidade do campo ao determinismo bio-químico.

De acordo com Michel Foucault, muito influenciado por F. Nietzsche, é mais importante do que procurarmos a origem ou início de um saber, saber de que forma este se articula no contexto de sua aplicação histórica, de sua efetividade, às relações de poder. A que formas de poder ele se articula, quais são as suas condições de possibilidade? Certamente os acontecimentos da medicina do trabalho, sua efetividade histórica, se dá articulada a várias formas de saber-poder. Se debruçar sobre isso, é claro, exigiria um texto muito mais alongado.

Não vamos neste post do blog entrar em outros modelos de atenção ou paradigmas. Isso deixamos para novos diálogos.  

Um abraço e até a próxima.

sábado, 6 de agosto de 2011

Falando sobre o Estresse

Sem trabalho toda vida apodrece, mas sob um trabalho sem alma a vida sufoca e morre

Albert Camus



            Como podemos começar a falar sobre o estresse? Em primeiro lugar, é só nos estressando, porque, afinal, rever literatura, sentar em pleno sábado e pegar alguns livros, jogar sobre uma mesa desorganizada e ficar vis-à-vis com um simpático, mas não muito sexy, computador, não é lá muito animador!

Pois bem, falar de estresse, em primeiro lugar, é derrubar o mito de que “estresse” é um conceito completamente negativo, ligado apenas a estafa física e psíquica. O conceito de estresse nos remete ao século XVII, utilizado no contexto das ciências físicas, indicando o grau de deformidade que uma estrutura sofre quando submetida a um esforço.

Uma das mais importantes “cabeças coroadas”, e oni-referência, a falar sobre estresse é Hans Seyle que, em 1936, definiu estresse como “resposta não específica do corpo a qualquer exigência feita sobre ele”, em suma, as reações desenvolvidas por um organismo a uma situação que exige um esforço de adaptação.

O estresse observado como um estado pode ser entendido a partir do resultado positivo (eustress) e do resultado negativo (distress) do esforço gerado pela tensão mobilizada. É bem simples, a mobilização feita por um estressor pode levar a uma re-organização positiva, criativa, ou funcional do indivíduo, ou, pelo contrario, a disfunção e estafa do organismo. Ainda de acordo com Seyle o conjunto de reações não específicas que ocorrem no organismo diante de situações de estresse pode ser chamado de “Síndrome Geral de Adaptação” (SGA). A SGA é constituída por três fases: reação de alarme, fase de resistência e fase de exaustão.

Só que o estresse não é mobilizado apenas pelo contexto ou situação. Se assim o fosse poderíamos dizer que a pessoa humana é apenas um objeto da realidade, um ruído diante da vida, um “porém”. Entretanto, se entendemos que ser-no-mundo e estar-aí só podem ser compreendidos através da indissociável relação entre pessoa e meio, uma relação onde ambos se modificam, então não poderemos manter o ponto de vista do realismo ingênuo.

Ao que tudo indica o estresse negativo, ou distress, deve ser pensado a partir tanto de um ponto de vista individual, subjetivo, das representações do sujeito e sua relação com o trabalho, mas também da visão mais ampla, incluindo os atravessamentos econômicos e sociais, por exemplo, da reestruturação da gestão do trabalho, downsizing, terceirizações, desemprego estrutural, perda dos direitos laborais, LER/DORT, perda da autonomia no trabalho, dentre outros.

Esse é apenas nosso primeiro encontro, aqui neste blog, com o instigante e complexo tema: “estresse”. Agora, eustressados, fechamos mais um post deste blog.

domingo, 17 de julho de 2011

Invisíveis Laborais


            Vamos tocar hoje num problema muito corrente nas instituições e locais de trabalho, daquele invisível que nos atravessa, se mostrando sempre indiretamente por vias tão distintas como a agressividade, tensão, fuga, indiferença, projeção, somatização, dentre outros. Tratamos dele, o sinistro, eis seu nome: Sofrimento.

            O sofrimento no trabalho pode ter muitas causas ou justificativas, o assédio moral, a tensão generalizada, o ritmo do trabalho, lento ou frenético em demasia, a hierarquia opressora, as más condições de trabalho, ou mesmo problemas pessoais que nem sempre conseguimos “deixar em casa”. Muitos são os motivos que podem levar os trabalhadores ao sofrimento no trabalho.

            Por outro lado, o sofrimento no trabalho nem sempre, ou não necessariamente, resulta em problemas, prejuízo e desumanização. Em algumas situações, o sofrimento age de forma sintomática, revelando não em si mesmo, mas através de si, a necessidade de transformação ou mudança de uma conjuntura. O sofrimento, quando bem manuseado, e em determinadas situações, pode ser uma ferramenta, ou agenciador, de mudanças e facilitar o processo de auto-conhecimento, “abrindo os olhos” de quem sofre para seus próprios desejos, para o “telos” ou finalidade de sua alma, senão para a necessidade de re-organização de um determinado serviço, tarefa ou, por que não, mesmo de um ambiente físico.

            Colocando em relevo a hierarquia das motivações de Abraham Maslow, a frustração de necessidades também pode levar ao sofrimento, p.ex, falta de sono ou alimentação adequada; supridas estas necessidades, devém outra, porque “gente”, como diz Tom Zé, “gente nasceu pra querer”. Entretanto, as próximas necessidades são de outro nível qualitativo em relação as anteriores, sanadas as necessidades fisiológicas e de segurança, é possível que o sujeito, para se sentir realizado, precise que aquele trabalho, sua atitude e atividade, façam sentido e mesmo que participem de um projeto mais amplo. Indo além, a hierarquia das motivações de Maslow não é tão hierárquica assim, pois nossas necessidades e motivações circulam entre os vários níveis, indo e retornando, mesmo de forma concomitante.

            Em suma, o sofrimento que tantas vezes leva ao fechamento, isolamento, hetero ou auto-agressividade, contribuindo para a cristalização de uma situação patogênica, pode também ser um importante catalizador de mudanças, quebrando padrões e permitindo o desligamento da energia de um sujeito, ou grupo de sujeitos, a um cenário infrutífero. Tendo em vista o sofrimento plural, devemos prestar-lhe atenção, observando se o sofrimento em questão pode ser um agenciador do devir, levando a aventura de caminhos inexplorados.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Trabalhos em Saúde do Trabalhador

Divulgando:

Nos dias 21, 22 e 23 de julho acontecerá na Universidade Veiga de Almeida (campus Tijuca), totalmente 0800 (9090), a V Mostra Regional de Práticas em Psicologia organizada pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ).

No evento, este que vos escreve apresentará o trabalho: "Psicologia e Atenção à Saúde do Servidor Público: a experiência da construção do serviço do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro". A apresentação será na sexta-feira, dia 22, às 17:00 na Mesa 3. Na mesma mesa serão apresentados outros trabalho em saúde do trabalho, o mesmo acontece na mesa 4.

A programção se encontra AQUI

Espero vocês lá!

domingo, 10 de julho de 2011

Atravessamentos Anímicos na Saúde do Trabalhador

As influências psicológicas na saúde do trabalhador e em sua qualidade de vida no trabalho ainda são insuficientemente exploradas. Embora um dos assuntos que colocamos em relevo neste blog seja qualidade de vida, é fundamental ressaltar, devido aos múltiplos significados deste significante, que nos posicionamos frontalmente contrários a vulgarização da temática qualidade de vida, fomentada pela “massificação” de que seria possível uma “regra mágica”, tão simples como vulgar, para alcançar um estado de “saúde” excelente, atemporal e cósmico.

Longe disso, abre-se o caminho, após os gritos ruidosos de 68, e da espiritualidade re-emergente, de uma saúde integral. Por saúde integral, entendemos uma busca por saúde (necessário definir saúde, evidentemente) que leve em conta a complexidade humana e os diversos agenciamentos que envolvem ser-no-mundo. Estamos falando, portanto, de que para se pensar em saúde, só podemos pensar de forma composta, isto é, refletindo de forma concomitante: espiritualidade, sentido de vida, saúde física, psíquica, relações interpessoais, vida laboral, etc.

Não é nada trivial esta discussão. Para se pensar apenas numa primeira pergunta, de difícil resposta, perguntamos se existe “qualidade de vida” ou se tratamos de “qualidades de vida”. Uma simples letra abre margem tanto a uma observação acurada do relativismo da qualidade, quanto a um possível psicologismo. Diante da relatividade da qualidade de vida, isto é, de seus determinantes idiossincráticos, ainda perguntamos se seria possível algum modo coletivo de intervenção, p.ex, num ambiente de trabalho, que possa levar a uma melhora coletiva da qualidade de vida e, portanto, da saúde dos trabalhadores.

Toda essa conversa sempre me lembra as profundas e fantásticas discussões do psiquiatra inglês Ronald Laing, criador, ao lado de David Cooper, da chamada “antipsiquiatria”. Um de seus livros se faz fundamental a toda essa discussão, trata-se do “Política da Experiência”. Recomendo!

Introdução à Antipsiquiatria - parte I e parte II

Vaga para emprego não deve ser ameaçada por resultado de exame de sangue

Fonte: Plugbr

Recentemente o fantástico exibiu uma reportagem mostrando o que as empresas podem ou não exigir de um trabalhador sem esbarrar na discriminação, comentou-se sobre questões financeiras, judiciais, mas vou aprofundar o pouco mais sobre exames de saúde. O exame de sangue HIV pode ser solicitado? Hemograma, urina ou VDRL alterado pode representar risco para conseguir a vaga de trabalho em uma empresa? Vamos avaliar obrigações das empresas e leis existentes que devem ser respeitadas para evitar constrangimentos.

Todas as exigências feitas pelas empresas, no ato da contratação ou mesmo quando funcionário já é contratado, devem estar alinhadas, leis trabalhistas e visão da empresa, mas principalmente deve evitar condições preconceituosas, que possam causar algum tipo de constrangimento, por isso, as empresas devem buscar todas as informações de seus postulantes a vaga de trabalho, ou dos já contratados, mas deve ter a sensibilidade de evitar excessos.

 
É importante saber que as empresas são obrigadas pelas leis trabalhistas realizar exames com base no programa de controle médico de saúde ocupacional – PCMSO (Norma regulamentadora – 7), mesmo o trabalhador não sendo obrigado a realizar determinados exames, deve estar ciente de que alguns são necessários para que o médico possa avaliar e decidir sobre a aptidão do profissional, cabendo ao médico preservar o sigilo destas informações, podemos citar alguns exames complementares, eletroencefalograma, eletrocardiograma, audiometria, exame de vista, entre outros, mais específicos de cada atividade exercida dentro da empresa.

O exame admissional é realizado antes do empregado ser contratado, o exame periódico é realizado anualmente na empresa, e o demissional é realizado no ato da demissão, além destes, exames devem ser solicitados quando o trabalhador mudar de atividade exercida ou ficar afastado por mais de 30 dias.
Alguns exames são realmente necessários e sem dúvida devem ser realizados, verificar a capacidade do candidato para o trabalho, se ele tem as condições de saúde que o cargo requer, para o bom desenvolvimento da função, fundamental para empregador e empregado, um motorista precisa enxergar bem, caso contrário pode sofrer acidente e causar prejuízo para a própria saúde, são exames que podem impedir o trabalhador de conseguir o cargo, já outros, considero que não deveriam representar impedimento para conseguir o emprego desejado, como hemograma, EAS, exame de fezes, VDRL, Hepatites virais, mas muito importantes para verificação da saúde do trabalhador antes, durante e depois da permanência dele na instituição.